Introdução à pesquisa jurídica empírica
2026-03-20
Quando pesquisamos no Direito, costumamos:
Mas o campo jurídico também pode — e deve — responder perguntas como:
A lei funcionou? Por quê? Para quem? Em que condições?
“Um desenho de pesquisa é um plano que mostra, por meio de uma discussão do nosso modelo e dos nossos dados, como nós pretendemos usar nossa evidência para fazer inferências.”
— King, Keohane & Verba (1994)
Em outras palavras: como minha evidência sustenta minhas conclusões?
Sem desenho de pesquisa:
Com desenho de pesquisa:
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│ DIMENSÃO AMPLA │
│ • Diálogo com a literatura existente │
│ • Relevância e originalidade da pergunta │
│ • Posicionamento teórico │
└──────────────────────────────────────────────────────┘
┌──────────────────────────────────────────────────────┐
│ DIMENSÃO PRÁTICA │
│ • Formulação clara da pergunta │
│ • Escolha do método de análise │
│ • Coleta e organização dos dados │
│ • Análise e apresentação dos resultados │
└──────────────────────────────────────────────────────┘
(Silva, 2018)
| Etapa | O que envolve |
|---|---|
| Pergunta de pesquisa | O que quero saber? É factível responder? |
| Referencial teórico | O que já se sabe sobre o tema? |
| Hipótese | Que relação espero encontrar? |
| Operacionalização | Como medir os conceitos? |
| Coleta de dados | Quais evidências vou reunir? |
| Análise | O que os dados mostram? |
| Conclusão | Minha hipótese foi corroborada? |
Uma boa pergunta deve ser:
Aviso
Evite: perguntas puramente normativas como “o aborto deveria ser legalizado?” — estas não são perguntas de pesquisa científica.
Afirmação normativa
Diz como o mundo deveria ser.
“Réus pobres deveriam ter a mesma defesa que réus ricos.”
Afirmação empírica
Diz como o mundo é.
“Réus com defensor público têm taxas de condenação mais altas do que réus com advogado particular?”
Nota
A pesquisa científica opera no plano empírico — sem abandonar as implicações normativas dos achados.
Uma teoria é uma tentativa de conjeturar sobre as causas de um fenômeno de interesse.
(Kellstedt & Whitten, 2015)
Uma teoria não é:
Uma teoria é:
Você observa: decisões sobre prisão preventiva variam muito entre juízes para casos semelhantes.
Pergunta: Por que juízes decidem de formas diferentes?
Teoria: A formação e os valores do juiz influenciam suas decisões — não apenas a lei aplicada ao caso.
Uma hipótese é uma afirmação testável derivada da teoria, sobre a relação esperada entre variáveis.
Exemplo:
Cientistas são rigorosos consigo mesmos:
Dica
Diferença crucial:
Um(a) advogado(a) busca provar sua tese.
Um(a) cientista busca testar sua hipótese — inclusive tentando refutá-la.
Teoria causal
↓
Hipótese
↓
Teste empírico
↓
Avaliação da hipótese
↓
Avaliação da teoria causal
↓
Conhecimento científico
(Kellstedt & Whitten, 2015, Fig. 1.1)
Toda hipótese envolve pelo menos duas variáveis:
Variável independente (X)
A causa teórica — o que usamos para explicar.
Ex.: carreira anterior do juiz
Variável dependente (Y)
O efeito — o fenômeno que queremos explicar.
Ex.: frequência de decretos de prisão preventiva
O valor de Y depende (em teoria) do valor de X.
Aviso
Exemplo clássico: venda de sorvetes e homicídios aumentam juntos no verão.
Isso não significa que sorvete causa homicídio — ambos são causados pelo calor (variável de confusão).
No Direito:
Constatar que uma lei foi aprovada e depois o crime caiu não prova que a lei causou a queda.
Podem existir outras explicações: mudança econômica, outras políticas simultâneas, variações demográficas…
Kellstedt & Whitten (2015) propõem cinco regras:
É a pesquisa que usa dados do mundo real para responder perguntas sobre o direito em ação — não apenas o direito nos livros.
| Direito nos livros | Direito em ação |
|---|---|
| O que a lei diz | Como a lei é aplicada |
| Como deveria funcionar | Como funciona de fato |
| Análise doutrinária | Análise de decisões, comportamentos, resultados |
Todas essas perguntas exigem dados — não apenas argumentação jurídica.
Jurimetria é a aplicação de métodos quantitativos e estatísticos ao estudo do fenômeno jurídico.
O que permite fazer:
Pergunta: a raça do acusado influencia a decretação de prisão preventiva?
| Etapa | Aplicação |
|---|---|
| Teoria | O sistema penal reproduz desigualdades raciais |
| Hipótese | Acusados negros têm maior chance de ter prisão preventiva decretada, controlando outros fatores |
| Hipótese nula | Raça não influencia a decisão |
| Dados | Amostra de decisões de 1ª instância com informações sobre réu e caso |
| Método | Regressão logística controlando por crime, antecedentes etc. |
| Conclusão | Corroboração ou refutação da hipótese |
Pergunta: a Lei Maria da Penha (2006) reduziu os homicídios de mulheres?
Nota
Estudos empíricos encontraram redução associada à lei — mas o mecanismo exato (dissuasão? proteção direta?) ainda é debatido.
Pergunta: votos de ministros do STF em matéria tributária são influenciados pelo partido do presidente que os indicou?
Pesquisas como essa existem e produzem achados que desafiam a imagem de neutralidade judicial.
Pergunta relevante e factível
↓
Teoria causal clara
↓
Hipótese testável
↓
Dados adequados à pergunta
↓
Método apropriado
↓
Conclusões honestas sobre
o que foi — e o que não foi — testado
Textos de base desta aula:
KELLSTEDT, P. M.; WHITTEN, G. D. Fundamentos da Pesquisa em Ciência Política. São Paulo: Blucher, 2015. (Cap. 1)
SILVA, G. P. Desenho de Pesquisa. Brasília: Enap, 2018.
Disponível em: https://repositorio.enap.gov.br/bitstream/1/3330/4/Livro_desenho_de_pesquisa%20%282%29.pdf
Desenho de Pesquisa no Direito