Seleção de dispostas para julgamento

O modelo de seleção de disputas de Priest e Klein

O problema empírico

Uma pergunta importante para quem estuda decisões judiciais:

Podemos compreender o funcionamento do direito observando apenas os casos julgados pelos tribunais?

Intuitivamente, parece que sim.

Mas há um problema.

A grande filtragem do sistema jurídico

Entre todos os conflitos jurídicos:

  • muitos nem chegam ao Judiciário
  • muitos terminam em acordo
  • poucos chegam ao julgamento

O julgamento é apenas uma pequena parte do sistema.

Uma pirâmide de disputas

Podemos imaginar o sistema como uma pirâmide:

Conflitos sociais

Ações judiciais

Casos julgados

Cada etapa elimina muitos casos.

Um fato empírico importante

Em muitos países:

menos de 5% dos conflitos civis chegam a julgamento.

A maioria termina em:

  • acordo
  • desistência
  • negociação.

A pergunta central

Por que alguns casos vão a julgamento enquanto outros terminam em acordo?

Essa é a pergunta central do modelo desenvolvido por Priest e Klein (1984).

A decisão das partes

Diante de um conflito, as partes escolhem entre:

  • fazer um acordo
  • seguir para julgamento

Essa decisão depende das expectativas sobre o resultado.

Expectativas sobre o resultado

Antes do julgamento, ninguém sabe com certeza quem vencerá.

Cada parte forma uma estimativa sobre:

a probabilidade de vitória.

Essa estimativa orienta suas decisões.

Como as expectativas são formadas

As partes avaliam:

  • provas disponíveis
  • interpretação da lei
  • credibilidade de testemunhas
  • comportamento provável do juiz

Com base nisso, estimam suas chances.

Um exemplo simples

Imagine um processo com possível indenização de:

100 mil reais.

O autor acredita ter 70% de chance de vencer.

O réu acredita que o autor tem 30% de chance de vencer.

Divergência de expectativas

As partes discordam.

Para o autor:

o caso é forte.

Para o réu:

o caso é fraco.

Essa divergência é fundamental.

Quando o acordo ocorre

O acordo ocorre quando existe um valor aceitável para ambos.

Por exemplo:

  • autor aceita receber 40 mil
  • réu aceita pagar 50 mil

Existe uma zona de acordo.

Quando o acordo falha

Agora imagine:

  • autor aceita apenas 60 mil
  • réu aceita pagar no máximo 40 mil

Não existe valor que satisfaça ambos.

O caso segue para julgamento.

A fonte da divergência

Por que as expectativas diferem?

Porque as partes cometem erros de estimativa.

Esses erros são inevitáveis.

Por que ocorrem erros

Erros surgem porque:

  • provas podem surgir durante o processo
  • testemunhas podem surpreender
  • a interpretação jurídica pode variar

Assim, as estimativas nunca são perfeitas.

Representando a força do caso

Priest e Klein representam a força jurídica do caso por uma variável:

Y

Essa variável mede quão forte é o caso do autor.

O padrão de decisão

Existe um ponto chamado padrão de decisão.

Se:

Y for maior que esse ponto → o autor vence.

Se:

Y for menor → o réu vence.

O papel do juiz

O juiz não precisa saber o valor exato de Y.

Ele apenas decide:

o caso está acima ou abaixo do padrão de decisão?

O problema da informação

As partes não observam o verdadeiro valor de Y.

Cada uma faz uma estimativa.

Assim:

  • o autor estima Yp
  • o réu estima Yd

Consequência importante

As estimativas podem ser diferentes.

Isso significa que:

as probabilidades de vitória estimadas pelas partes também podem ser diferentes.

Essa diferença gera litígio.

Quando ocorre julgamento

O julgamento ocorre quando a diferença entre as expectativas é grande.

Se as expectativas forem semelhantes:

o acordo é mais provável.

O insight central

Agora surge a ideia mais importante do modelo.

A divergência entre as partes depende de quão próximo o caso está do limite da decisão jurídica.

Casos muito claros

Imagine um caso muito forte para o autor.

Ambas as partes percebem isso.

O réu sabe que provavelmente perderá.

O acordo torna-se provável.

Casos claramente favoráveis ao réu

Agora imagine um caso muito fraco.

O próprio autor percebe isso.

O acordo também tende a ocorrer.

O que acontece com casos claros

Casos muito claros tendem a desaparecer por acordo.

Eles raramente chegam ao julgamento.

Casos próximos do limite

Agora imagine um caso muito incerto.

Alguns elementos favorecem o autor.

Outros favorecem o réu.

Incerteza maior

Nesse cenário:

cada parte pode acreditar que vencerá.

A divergência aumenta.

O julgamento torna-se mais provável.

O processo de seleção

Assim surge um processo de seleção de disputas.

Os casos julgados não são aleatórios.

Eles tendem a ser os mais incertos.

A concentração de casos difíceis

Os casos julgados tendem a estar próximos do limite da decisão.

Ou seja:

são casos difíceis.

Uma analogia com apostas

Os autores usam uma analogia com apostas esportivas.

Imagine um jogo entre:

  • um time muito forte
  • um time muito fraco.

Quando o resultado é previsível

Se a aposta for apenas:

quem vence?

Quase ninguém aposta.

O resultado é óbvio.

A linha de aposta

Para gerar apostas, cria-se uma vantagem artificial.

Por exemplo:

o time forte precisa vencer por mais de 10 pontos.

Agora o resultado é incerto.

Incerteza gera apostas

Quando há incerteza:

as apostas aumentam.

O mesmo ocorre com disputas judiciais.

O mesmo mecanismo no direito

Quando o resultado é muito previsível:

as partes fazem acordo.

Quando o resultado é incerto:

o julgamento ocorre.

Consequência estatística

Os casos julgados concentram-se próximos ao limite da decisão.

Isso tem uma consequência estatística importante.

O resultado surpreendente

Entre os casos julgados:

as vitórias tendem a se dividir.

Aproximadamente metade para cada lado.

A famosa previsão do modelo

O modelo prevê que:

a proporção de vitórias do autor em julgamento tende a se aproximar de 50%.

Mesmo que a realidade seja diferente.

Um exemplo numérico

Imagine que apenas 30% dos conflitos realmente favoreçam o autor.

Se todos fossem julgados:

o autor venceria cerca de 30%.

O efeito da seleção

Mas os casos muito claros são resolvidos por acordo.

Os casos julgados são os mais incertos.

Entre eles, o resultado tende a se equilibrar.

O viés de seleção

Assim, os casos julgados não refletem a distribuição real dos conflitos.

Eles são selecionados.

Isso cria um viés de seleção.

Consequência para pesquisas empíricas

Se analisarmos apenas decisões judiciais:

podemos chegar a conclusões equivocadas.

Os dados disponíveis são apenas parte da realidade.

Analogia

Imagine o uso do VAR no futebol.

A maioria dos lances é clara:

  • falta evidente
  • nenhum contato

Esses lances não vão ao VAR.